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A agulha entrava e saía com uma rapidez que parecia que ela estava a comandar uma orquestra. Era lindo de se ver. Ao fim, instintivamente ela cortava a linha com os dentes, e voltava-se para a máquina para concluir a costura. 

O dia passava rápido assim. Quando via, era hora de parar e voltar-se para o restante da sua vida. Afinal, seus dias dividiam-se entre a parte em que ela costurava e em outra que ela se tornava a própria costura. Ficavam pregados em sua carne cada acontecimento e sentimento, bons e ruins. Ela, que era uma costura remendo, odiava usar retalhos. 

Guardou os utensílios e por um instante se permitiu observar a sua obra quase pronta. Era um bordado lindo. O nome em bordado cheio na cor preta, e flores nas bordas nas cores amarela e rosa eram um primor à parte naquele conjunto que estava quase concluído. 

Ela amava os seus bordados. A delicadeza, as cores e a dificuldade  lhe causavam sempre uma sensação de satisfação quando terminava. E poderia ficar ali olhando sua obra incansavelmente, mas estava cansada e precisava ainda terminar o jantar. 

Desligou a luz do ateliê e foi ser costurada. 

No dia seguinte, ao abrir a porta, marcada pelos acontecimentos do dia anterior, pôs-se a bordar novamente. A agulha entrava e saía ainda mais rápido, e ela tinha a sensação de que se fechasse os olhos, ainda assim, conseguiria fazer um bordado perfeito. A sincronia em que ela furava o tecido e o movimento do seu braço lembravam um mar em tempestade. Suas mãos pareciam ondas, subindo e descendo sobre o tecido. 

Mas ela era uma mulher costura. E lembrando da noite passada sentiu um aperto, pois estavam em sua pele e memória mais um evento daqueles tristes, mas comuns. Seu marido chegou bêbado como em todo início de mês e queria tê-la em sua cama, porém ela odiava quando ele chegava assim. E mais, sentia repulsa do hálito de álcool que vinha de sua boca, e que impregnava a pele dela com os beijos. Disse que estava cansada, tinha muitos bordados para fazer no dia seguinte, e precisava se apressar para entregar a encomenda. 

Ele, revoltado com a recusa que entendia injustificável, foi até o quarto de costura e passou a rasgar o último bordado, gritando que era por negar-lhe que ela não conseguia lhe dar um filho. Sorte que ela havia admirado o seu trabalho mais cedo, pois se não, não sobraria nem mesmo a lembrança. Com medo que ele rasgasse tudo, ela resolveu ceder às exigências dele e foi se deitar à cama para satisfazer as suas vontades. E como de costume, dormiu chorando das dores que coziam sua história. 

Agora estava ela ali, costurada e costurando. Mas a vida apertava demais o ponto. Sabe quando você puxa demais o bordado e o tecido não aguenta tanto o perto? Era assim mesmo que estava o coração da costureira. Porém ela, como boa bordadeira nunca apertava demais o seu bordado, usava sempre a mesma medida, só assim para o tecido ficar reto e o bordado vistoso. 

E a rapidez foi tanta de suas mãos que não apenas refez o bordado do dia anterior, mas quase concluiu mais um. Ao fim do dia, suspirou fundo, guardou agulha, tesoura, tecidos e linhas; cada coisa em seu lugar e pôs-se a fechar a janela e a porta. 

A vida bagunçava tudo, mas ela gostava do seu ateliê sempre bem arrumado.

Mais uma vez foi remendada, e abriu a porta suspirando, certa de que ali, naquele cantinho seu, poderia momentaneamente esquecer sua outra vida. Parecia que quanto mais retalhos lhe eram acrescentados, mais diminuía a costureira e aumentava a costura. Porém, desta vez foi ela quem quase que suplicante pediu à vida mais um remendo. Nem entendia porque fez aquilo. Quando seu marido chegou, e percebeu que ele não estava bêbado, vestiu-se de coragem para cobrar-lhe o valor para pagar a conta de energia que estava atrasada e com promessa de corte a qualquer momento. O que ela não sabia era que todo o dinheiro do mês já havia sido deixado na mesa de bar. Irritado, e sentindo-se afrontado, ele deu-lhe um tapa na face. 

A tapas já estava acostumada, porém ele estava com muita raiva, e não era apenas dela cobrar-lhe dinheiro que não tinha. Era raiva do patrão que o humilhava, dos irmãos que o desprezavam, dos amigos que se afastavam quando o dinheiro acabava. Era muita raiva costurada. Porque ele também era costura.

E os tapas viraram socos, e os socos foram seguidos de pontapés. Pontapés e socos que se intercalavam enquanto ele sobre ela liberava todo o ódio da vida que acumulara. Depois, em arrependimento, ele disse que não sabia o que tinha lhe dado na cabeça, mas que não faria de novo. Declarou-lhe amor e lhe cuidou as feridas. 

A agulha entrava e saia do tecido, hoje lentamente. Os braços doíam, a cabeça doía. Mas algo doía-lhe ainda mais por dentro. O ritmo, mesmo que lento, se mantinha em harmonia. E ainda assim, era belo. Parecia uma folha de fim de outono sendo levada por uma leve brisa de prenúncio de inverno.

Acabou a linha. Mas já era um pouco tarde para ir comprar outra. Deixaria para o outro dia. A agulha e tudo mais foram guardados mais cedo. Contudo ficou ali sentada, sem ousar sair  do seu espaço seguro. A dor persistia ainda mais forte e insuportável, e até agradeceu ter acabado a linha.

Ali sua mente vagarosamente foi silenciando e adormeceu junto à máquina de costura. Em sonho viu três senhoras tecendo fios. Elas riam-se, choravam, silenciavam, mas sempre tecendo. Às vezes cortavam linhas, remendavam outras. Dado momento viram uma linha bem remendada, e talvez por piedade, cortaram-lhe de uma vez. Os médicos disseram que foi hemorragia interna.

Paula Carine

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