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Aquele indo ali de bicicleta e saco de pão na mão é o João. 

João dos Santos Silva quase se chamou José da Silva Filho. Mas quando sua mãe o viu pela primeira vez disse que não tinha cara de José, e sim de João. E registrou-se então João, filho de José. Ficou prometido que o próximo filho teria o nome do pai, mas depois vieram duas meninas, e ninguém teve no nome Filho. 

Quando João era ainda pequeno viu seu pai rumar para São Paulo em busca de uma vida melhor para todos. Foi um chororô só. Mas o choro acabou no dia que a vizinha chegou gritando – É seu José na linha lá de casa, corre, Ana. E sua mãe saiu correndo com os três filhos, uma ainda no colo. 

José sempre ligava, no início com menos frequência. Estava difícil arrumar trabalho. Mas sempre que ligava sua mãe tinha boas histórias para contar na hora de dormir. Desconfiava que ela floreava demais, porque as ligações eram sempre tão curtas, e os relatos sempre tão longos. 

Um dia sua mãe lhe disse que o pai José estava trabalhando na construção civil. Levantando um prédio na Paulista, ela falou toda feliz. E João ficou imaginando seu pai, bloco após bloco, levantando uma casa que tocasse as nuvens. Quando crescesse queria ser igual a seu pai, falou. 

As ligações, embora tenham se tornado frequentes com o tempo, não vinham com notícia de dinheiro ou passagem para eles, e sua mãe ia se virando com o que dava. Era difícil a vida na grande São Paulo. Tinha trabalho, mas dinheiro pouco, ele dizia. Por enquanto só dava para pagar para dormir e comer. Mas também era difícil a vida ali para eles que ficaram.

Mais tempo passou, as ligações foram rareando, até que um dia, viu o sorriso da sua mãe diminuir, não contou as histórias da ligação, e depois percebeu que ela chorava no quarto. Nunca mais teve ligação. E o nome José não foi mais pronunciado. 

Quando João cresceu, foi trabalhar na construção civil, como seu pai. Não levantava arranha-céus, mas ajudava o mestre com a massa, carregava tijolos e o que mais fosse necessário. E de quebra aprendia com os mais velhos o ofício e ainda a gracejar com as moças que passavam de frente para a obra. – Ô, lá em casa -, era um clássico que vez ou outra arrancava um sorriso. 

Um dia a moça olhou para ele discretamente, e nos dias seguintes reparou que ela passava com os olhos lhe procurando. Ele já sabia até o horário. Resolveu puxar um papo, chamar para tomar um sorvete. Na hora ela disse que não, seu pai não deixava, mas depois aceitou, dizendo que um sorvete não tinha nada de mais. E o sorvete virou namoro.

A coisa ficou séria entre os dois, e mais ainda quando a moça apareceu grávida. João, que era homem direito, casou e prometeu não mais gracejar no trabalho, afinal, ele já tinha mulher e filha lá em casa. Promessa essa que nem sempre cumpria, eram só gracejos sem intenção de verdade. Mas, uma outra promessa ele fez: não seria igual a seu pai. 

O trabalho pesado doía as costas, mas o que doía mesmo era levar pouco dinheiro para casa. Sua filha pediu um sapato novo e depois de pagar as contas não sobrava nem o valor da sola. O jeito era comprar só cola. 

Sua mulher estava de bucho cheio, quarto filho. Esperava que viesse agora um menino, já tinha três meninas. Menina era bom, mas um menino quando crescesse ajudava no trabalho. 

No fim, foi outra menina. E João pensou: Melhor assim, que trabalho eu para as filhas estudarem o que não estudei. João mal sabia escrever.  Sem pai, precisou trabalhar desde cedo, não queria que filho seu tivesse o mesmo destino. 

As meninas cresciam, e estavam sempre arrumadinhas. A coluna doía, mas não faltava comida, escola e um saco de pão no fim do dia. Sua esposa orgulhosa dizia -eita homem trabalhador-, quando ele saía às cinco da matina com a marmita e o café para a lida.

Ana, Maria, Joana e Alice, as quatro filhas de João. E ele fazia de tudo por elas. Carregava cimento, colocava bloco após bloco no sol quente, e remendava as calças para poder comprar o que elas precisassem. Outro dia a Joaninha tinha pedido enquanto rezava uma boneca muito cara. Ele sabia que não ia poder comprar, e isso dava um bolo na garganta toda vez que lembrava. 

Um dia antes de pegar a condução resolveu entrar na loja de brinquedos e ver o preço da tal boneca. Era cara mesmo, mas o rapaz disse que fazia crediário, pagava parcelado. Pensou, pensou. Nem tinha de onde cortar gastos, não havia luxos. Então veio a ideia: acordava mais cedo e ia de bicicleta para o serviço, sobrava o valor da prestação. E assim, levou brinquedo para a criançada toda. A felicidade das meninas fazia valer a pena qualquer sacrifício, e ainda de quebra, a bicicleta deixava forte o coração, ele disse. 

Dia desses, na fila do pão, João disse todo orgulhoso que a Aninha tirou dez na redação na escola. Confessou que teve dificuldade de entender o que ela escreveu, não é muito bom com as letras, mas que realmente era muito bom, sua esposa, que era mais letrada, confirmou, e ainda disse que ia ser escritora sua filha quando crescesse. 

E as filhas, cada uma à sua maneira, traziam novas situações para sua vida. A caçulinha, Alice, é com ele para cima e para baixo e estava sofrendo um tal de bullying na escola. João foi todo brabo na direção. Disse que se o diretor não resolvesse, resolvia ele na porrada. Mas o diretor explicou que violência não resolve nada e fez as coisas lá na legalidade e a Alicinha já estava feliz de novo na escola. 

Aqui na fila do pão, enquanto espera sair o pão doce para levar para a sua Joaninha, a vida de João se desenrola em pedaços contados, mas sempre vividos intensamente. 

João nunca construiu um arranha-céu, e nem tem Filho no nome. Mas construiu uma família na qual ele é pai de verdade.

Paula Carine

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