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Em

Uma, duas, três curtidas instantâneas. Era uma foto realmente bonita: a rua com pessoas e carros indo de um lado a outro. Mais curtidas. Havia fotografado aquele vai-e-vem que horas? Talvez perto de meio-dia, pela posição do sol. Porém, não conseguia lembrar. 

Voltou.

E rolou o feed, devagar. Havia muitas lembranças ali: sorrisos, paisagens amazônicas. As curtidas — muitas —, e nomes de amigos. Olhar aquilo com atenção lhe trouxe um estranhamento que não sabia nomear.  Como se por dentro da sua carne fosse oca. E dentro de si, apenas ecoasse sons de notificações, repetindo-se a todo momento. Preenchendo o vazio com vazio sonoro. 

Saiu. 

Parada no semáforo, ouviu nova notificação. Já eram mais de cem curtidas, e nem tinha uma hora que postou a foto. A frase que pegara na internet, “Eles passarão, eu passarinho”*, ajudava a compor aquele acerto de engajamento. 

Buzinas. 

O semáforo estava aberto. Continuou seu trajeto e ao chegar ao trabalho percebeu que a iluminação estava perfeita para uma foto. Então, resolveu fazer um story com  café e foi até a cafeteria da esquina comprar. Foto perfeita do prédio ao fundo e sua mão segurando o café fumegante. Percorreu o olhar na internet para completar a postagem com um “Não existem atalhos”. Perfeito. 

Subiu. 

No caminho, enquanto rolava story após story, perdeu o andar. E como todos os elevadores estavam subindo, precisou descer alguns lances de escada. Foram quantos andares? Não lembrava, mas por fim, entre subir e descer, perdida entre os andares, conseguiu chegar. Ao menos sua foto já havia recebido muitos corações e comentários. Enquanto isso, seu coração acelerado, pedia uns minutos de descanso. 

Sentou.

Frente ao computador, passou a trabalhar. E, como todo início de mês, parecia que pressionaram o botão apagar tempo – tempo demais. Era como se tudo que se foi, viveu e realizou se apagasse para que iniciasse novamente uma corrida que tem apenas ponto de partida, nunca ponto de chegada. Sentia-se puxada ao primeiro passo enquanto via suas pegadas apagadas do chão. 

Suspirou. 

O dia, entre cafés, conversas, digitações e afazeres derramou o sol. Desceu, dirigiu até em casa. Onde estavam as chaves? Ela não conseguia encontrar. Tentou lembrar se havia guardado na bolsa quando saiu de casa, mas nada. Sentada no chão, tirando aquelas infinidades de coisas da bolsa, resolveu ligar para um chaveiro 24 horas. Colocou a mão no bolso da calça e a mão foi mais a fundo tocando as chaves. 

Entrou. 

Abriu a geladeira para ver o que havia para comer. Um macarrão com queijo que ainda tinha o cheiro bom. Mas era de que dia? Olhou no celular, a foto dele marcava dois dias atrás. Então deveria estar bom, e estava. Satisfeita, se arrumou para dormir. Porém antes, um episódio de reality caia bem. Era uma sorte que o streaming sempre voltava onde ela parou. 

Apertou.

O botão ligar sempre acalentando seu cansaço. Entretanto, enquanto assistia e rolava a tela do seu celular, foi olhando cada um dos seus stories do dia. Tinha tirado uma selfie com os colegas de trabalho? Ao que parece sim, afinal, a foto estava ali. Resolveu olhar o dia anterior. E o anterior ao anterior. E quanto mais via, mais se assustava. Não lembrava daquelas coisas. Não era muito nova para ter episódios de perda de memória? Com um frio na espinha desligou a TV, colocou o celular debaixo do travesseiro e foi tentar dormir. 

Dormiu. 

Em sonho, muitas imagens começaram a aparecer e se amontoar. Tudo muito rápido. Depois, apenas um borrão. Pareciam fotos envelhecidas e apagadas pelo tempo. Porém, quanto mais olhava para elas percebia que havia um brilho de tela. E de repente, tudo se apagou. 

Acordou. 

Assustada e paralisada, suava frio com o coração acelerado. Minutos depois, sentindo que voltara ao controle do seu próprio corpo, lembrou dos esquecimentos que tinha tido na noite anterior. Devia estar muito sobrecarregada, precisava desacelerar. 

Levantou.

Porém os dias foram passando e cada vez que tentava lembrar de algo vivido sentia como se nada fizesse parte da sua vida. No início sentia apenas um vazio de existência e vivência. Mas, com a continuidade dos esquecimentos, passou a achar que havia algo mais comprometedor em sua mente. 

Estremeceu.

Passou a fotografar mais e postar mais, assim lembraria de cada momento do dia. Postagens demais, algumas com sentido só para ela, outras nem para ela, diminuíram seu engajamento, mas precisava lembrar. Ocorre, que quanto mais ela postava, mais concluía que tudo era esquecido ao fim do dia.

Sorriu. 

Para uma foto aleatória na frente da clínica. De posse de todos os exames  preencheu o prontuário e ficou aguardando seu nome ser chamado. “Lara”, disseram pela terceira vez. Assustada, olhou novamente seu prontuário e lá estavam escritas com sua letra, todas as suas informações. 

Levantou. 

A médica, após olhar resultado por resultado, confirmou: não havia nada ali. Sua mente estava intacta, ao menos no que era possível descobrir pela infinidade de exames feitos. Podia ser uma crise de estresse, ela falou, dizendo estar sendo muito comum. Talvez um remédio para dormir ajudasse.

Saiu. 

Rumo à farmácia, ainda ecoava em sua mente a ausência de diagnóstico. Um resultado, mesmo se ruim, era melhor que o seu caminhar na penumbra. Ela não entendia como aquela perda de memória não foi captada em nenhum exame. Enquanto isso, os sons de notificação pareciam pancadas ritmadas em sua cabeça, que batiam e rebatiam pelos cantos ocos da sua mente. 

Socos. 

No estômago, no peito. Parou o carro para respirar. E as buzinas já se acumulavam lá fora. Cá dentro som seco de mensagens. Puxava o ar que não vinha. Tinha esquecido até como respirar? Tirou o cinto, abriu a janela. Não havia ar ali? 

Estacionou.

E saiu do carro em completo desespero. “Ontem eu”, ia tentando lembrar o que fizera no dia anterior. Nada. “Anteontem quem sabe”, e de novo o vazio. Talvez compartilhar com alguém trouxesse sentido a tudo aquilo. Ligou para um amigo, mas ele também não lembrava o que tinha feito no dia anterior. Outro, e outro e outros amigos. E ninguém conseguia descrever os dias já findos. 

Parou. 

Já tinha andado muito desde que estacionara. Seu relógio marcava tantos passos, e ela nem saberia dizer onde esses passos pisaram. Parou uma pessoa qualquer na rua e perguntou sobre o dia anterior. A pessoa, com olhos de desconfiança, seguiu seu caminho, mas lá pelas tantas virou para trás e gritou em desespero “não lembro nada de ontem!”. 

Olhares.

Muitos olhares sobre aquela revelação. Quem lembrava? Estaria a humanidade fadada a esquecer dia após dia? Estariam presos a recordações em redes? Seria esta a salvação para um colapso de esquecimento? 

Questionou se. 

Essa confusão já embaralhava seus sentimentos e memórias há muito tempo. O sol já se derramava sobre o porvir. E estava tão belo. Foi se aproximando e enquadrando a foto. Mas antes olhou ao redor. Rostos iluminados sob o pôr do sol. 

Luzes. 

De celulares apontados, as pessoas fotografavam o ir do sol. Parecia um ritual. Enquanto olhava aquilo, foi abaixando o celular. Estariam todos hipnotizados ou apenas fascinados com tamanha beleza? Podia jurar que, enquanto, em transe, os indivíduos erguiam celulares ao céu, via algo de material que flutuava saindo do topo da cabeça em direção ao topo do celular. Mas que loucura!, 

Pensou. 

Guardou o celular e apenas ficou ali, parada observando o sol se pôr. Olhos fixos sobre o horizonte. E, quando tudo acabou e as pessoas começaram a ir embora, resolveu ir também. 

Acordou.

O dia anterior parecia um borrão na sua mente. Mas lembrava-se do sol cor de ouro escondendo-se nas árvores, enquanto se derramava sobre as águas escuras da Amazônia. Pena não ter tirado uma foto sequer. 

 

Paula Carine

*Trecho do Poeminho do Contra, de Mário Quintana

**Essa foto eu tirei no Rio Verde, que fica na Agrovila Rio Verde, aqui em Porto Velho. É um pôr do sol belíssimo, desses que apenas a Amazônia nos permite ver. 

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