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Aqui no salão eu vejo e escuto de um tudo. Coisas absurdas, que me fazem dar uma risadinha sem graça e dizer um “e não é?” só para não discordar do cliente. Há quem faça discursos filosóficos que eu não entendo nada, mas concordo. Se ele está dizendo, né?

Mas também escuto desabafos sinceros, aquelas verdades que vêm do mais íntimo das pessoas. Não sou terapeuta, mas sei que as pessoas sentam na poltrona como se sentassem num divã. Elas me contam suas vidas, seus medos, seus sonhos, enquanto eu, entre ouvir e aconselhar, corto seus cabelos, faço suas barbas e varro fios e mais fios que caem no chão.

Um desses clientes é o Carlos. Senhor de meia-idade. Não sei bem quantos anos ele tem. As pessoas me dizem muitas coisas, mas a idade não é bem uma delas. Motorista da empresa de ônibus da cidade, faz a linha rural há mais de dez anos, segundo ele. Porém, um dia me contou que, quando adolescente, viu numa revista um corte de cabelo e pediu à mãe para fazer. Corte mullet.

Ah, eu me lembro bem desse corte. Anos 80 e 90, eu cheguei a fazer uns quinze a vinte por dia. E, um tempo desses, até aparecia um ou outro aqui pedindo para fazer esse corte, mas nada como antigamente.

Um corte mais curto na frente e nas laterais, mais longo na parte de trás. Alguns queriam a parte de trás bem mais longa, como se, quanto maior o comprimento, mais subversivo. Eu fazia esse corte em homens, mulheres, adultos e crianças.

Quando o Carlos me contou esse desejo de infância, disse ainda que sua mãe, aos gritos, falou que não tinha filho vagabundo e, só por isso, mandou cortar-lhe os cabelos bem curtos. Ainda falou que uma vez fugiu de casa, levando consigo a revista e, com as economias que tinha, pediu ao barbeiro que lhe fizesse um corte igual. O homem, rindo do menino, disse que nem mullet nem corte nenhum era possível fazer ali. O menino mal tinha cabelo.

Fato é que Carlos cresceu, virou motorista, com habilitação categoria D, e passou a trabalhar dirigindo ônibus na zona urbana e, depois, na zona rural, o que, para ele, era um orgulho, pois, segundo dizia, o trajeto era muito mais difícil.

Rindo, Carlos me disse um dia que não sabe se primeiro aprendeu a dirigir ônibus ou perdeu os cabelos da frente. Era meio calvo desde o início da juventude. Primeiro, uma entrada alargou a testa; depois, foi tomando sua cabeça, e hoje ele só tem cabelo nas laterais, que faz questão de cortar regularmente; de quinze em quinze dias, estava aqui.

Mas o riso foi ficando curto e, olhando para baixo, disse que nunca conseguiu fazer o tal corte mullet. Eu, então, em tom de brincadeira, peguei a tesoura e o pente e comecei, com os braços erguidos ao alto da cabeça de Carlos, a cortar-lhe os fios que só eu via. Ele sorriu, perguntou o que eu estava fazendo, e lhe respondi que estava fazendo o corte mullet que ele tanto queria. Meus braços subiam e desciam. Pente sobre o nada e tesoura a cortar.

Enquanto isso, ele balançava a cabeça, rindo da minha encenação. Ao fim, mostrei o corte mullet e ainda usei spray fixador para dar sustentação à nossa imaginação.

Ele pagou por um corte mullet, aderindo à brincadeira. Despediu-se e saiu. Porém, quando ele foi embora, pensei se não havia exagerado na brincadeira. Ele cortava o cabelo há anos comigo, mas eu não podia dizer que éramos amigos a ponto de me dar abertura para brincadeiras.

Mas, para minha surpresa, quinze dias depois, quando terminei de cortar seus cabelos, Carlos me disse: “Agora, o mullet.” Eu, primeiro, não entendi bem, mas depois lembrei da brincadeira e comecei a minha encenação. Rimos muito, enquanto as outras pessoas não entendiam nada.

E, de quinze em quinze dias, eu fazia o corte mullet, após terminar o pé do corte linear no cabelo de Carlos. Carlos, o calvo de corte mullet imaginário. Não sei ao certo quanto tempo passamos fazendo essa brincadeira. Sei que fiz o corte mullet imaginário até que, um dia, sem aviso prévio, Carlos não apareceu mais.

Eu nem lembrava mais dele quando, hoje, ele despontou ali na porta. E, se eu contasse a cabeleira que ele exibia, você diria que é invenção. Com certeza, eu o olhei, com sobrancelhas arqueadas e um olhar longo que diz “que porra é essa?”. E ele, rindo, dando de ombros, veio e me cumprimentou, como sempre fazia ao chegar. Era como se tivesse me visto há duas semanas.

Ora, ele, com cabelos na frente. Quem diria! Sentou-se, ignorando a fila de clientes, e eu, ignorando também, perguntei o que faríamos hoje, mas eu queria ouvir aquele nome: mullet. Por dentro, eu vibrava, como se a conquista fosse minha.

Ele, em alto e bom som, disse: “Hoje faremos o mullet, mas o de verdade.” E eu comecei; lá no alto da cabeça de Carlos, penteava e cortava os cabelos, me esforçando para fazer o mullet perfeito.

Ao fim, perguntei o que achou. Ele olhou, olhou bem para o grande espelho. Passou um longo tempo admirando. O espelho grande devolveu um homem e um menino, lado a lado. E eu, certo de que tinha feito o melhor mullet da minha vida — ou talvez o mais desejado.

Porém, ele, após pensar bastante, suspirou, e percebi que seu olhar era mais sério do que o habitual. Os dedos dele apertaram o braço da cadeira; a alegria de outrora cedeu a uma calma que eu ainda não tinha visto. “Vamos cortar máquina um”, ele disse. Eu, sem entender, ainda fiquei paralisado por um tempo. Ele repetiu: “Vamos cortar máquina um.” Eu, ainda confuso, fui, peguei a máquina e comecei a cortar-lhe a cabeleira.

No fim, ele sorriu, pagou-me e foi embora. E eu fiquei aqui com a lembrança do mullet perfeito.

Paula Carine

* Ilustração: Paula Carine 
**Oi amigos, estava querendo escrever este conto há um tempinho. É um retalho de um comentário que vi em uma rede social qualquer dia desses e me ocorreu que poderia me permitir falar sobre sonhos e dialogar com uma pergunta que em mim é latente: o sonho que sonho hoje também me veste amanhã? Acho que há sonhos que não envelhecem, porém há outros que possuem um time, e se passado o momento, já não cabem em nossas vidas. Já lhe aconteceu de ter um sonho/desejo, e tempos depois ele já não ter mais sentido para você? 

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