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Foi logo pela manhã que reparou que sua mesa de trabalho parecia menor que a mesa ao lado. Já estava aprisionado há alguns anos naquele mesmo lugar e nunca antes tinha percebido tal diferença. 

A mesa, cheia de protocolos e trabalhos inacabados, não tinha mais espaço para uma tarefa sequer. Não cabia nem a caneca de cara enfezada que ganhou dos colegas de trabalho no seu aniversário. Eles faziam graça do seu jeito de ser, mas mal sabiam que ele não via graça alguma. 

Voltou-se novamente para a mesa. Era tão pequena. Seria mesmo menor que as demais? Resolveu então olhar as outras. Esticou a cabeça e o olhar para além das baias e uma após outras foi tentando medir com os olhos, e todas pareciam maiores que a sua. Seria proposital? 

Não tinha como confirmar pois não tinha como medir. Então voltou-se para sua pilha interminável de afazeres e olhando folha a folha foi separando o que havia para trabalhar. Ou melhor, tentar trabalhar, já que nos últimos tempos sentia como se o trabalho fosse a sua condenação infernal. Agora vivia correndo atrás das tais metas, sabotado em seu talento criativo e amor pela profissão. 

Entretanto, quando olhava ao redor e parecia que todos sabiam que sua mesa era menor. Viu dois colegas olhando em sua direção enquanto conversavam e teve quase certeza de que comentavam sobre a sua mesa enquanto gesticulavam fazendo sinais de metragem. E ainda riram! 

No dia seguinte chegou mais cedo que os demais munido de uma trena. E confirmou: 2 centímetros a menos! Era muito pouco, não fazia nem diferença. Mediu mesa a mesa, todas com a mesma medida, apenas a sua era menor. 

No terceiro dia, percebeu que a sua mesa estava a diminuir. Tentou medir com uma régua, e se perdia na conta, ou naquela sensação estranha que crescia nele. Era quase uma raiva, mas não chegava a tanto. 

Não era possível que a mesa estivesse encurtando! E quanto mais pensava, mais irritado ficava. Quanto mais tentava medir, mais sentia a insatisfação que tudo aquilo lhe gerava. 

A trena, que já estava no carro, foi novamente levada até a mesa no quarto dia, e agora a diferença era de 5 centímetros. Teria medido errado na segunda-feira? Pois mediu novamente mesa por mesa e todas iguais, nenhum centímetro a menos. Somente a sua somava todas as faltas. 

Com essa ideia persistente sobre os centímetros a menos, passou a observar cada milímetro da mesa Talvez tivessem cerrado, ou lixado a sua mesa, apenas para demonstrar-lhe que ele tinha menos valor. E podia jurar que os olhares caíram sobre ele, enquanto seus colegas encarecidos de culpas disfarçavam sua descoberta sobre os centímetros a mais, ou a menos. Porém, olhando para ambos os lados, não parecia ao menos esteticamente que tivessem mexido na matéria. 

Mais uma vez, espantando as ideias como se espanta moscas voltou-se ao trabalho. Eram apenas 5 centímetros a menos de mesa.

Uma semana se passou, e o incômodo ficava cada vez maior, na medida em que percebia que sua mesa encurtava. Às vezes media a extensão, outras vezes decidia que queria deixar para lá. Outras ainda, questionava os colegas que fingiam não se importar com o que falava ou se limitavam a rir da piada. 

Piada! Piada era perceber que cada dia levava os centímetros da sua mesa de trabalho. Ao menos o tempo fizesse o favor de impor proporção a este desgosto. No oitavo dia dois centímetros se foram, e no nono poucos milímetros. Ele, que apreciava a matemática e a lógica, odiava mais ainda esta perda. 

Em determinado momento já nem chegava mais cedo para fazer as medições, que agora eram diárias. Com os colegas já iniciando os trabalhos, tomando um cafezinho ou rindo de um caso qualquer, ele aparecia munido da trena e passava a fazer medições e anotações. 

E com as anotações passava a fazer cálculos e mais cálculos, porém não conseguia decifrar qual a lógica por trás de tudo aquilo. As madrugadas em claro transformavam-se em folhas e mais folhas preenchidas por contas, gráficos, tabelas que a um terceiro pareceriam sem sentido algum, mas que para ele, cada vez mais fazia sentido. 

Porém parecia que o cansaço da descoberta cobrava a conta sobre seu corpo. Duas semanas inteiras de atestado. Uma gripezinha se transformou em uma quase pneumonia. E, enquanto tossia sozinho, desesperava-se sem poder medir. Conseguia apenas pensar nos centímetros a menos, nas proporções, e no quanto todos deviam estar a rir de si com a mesa cada vez menor. 

Quando enfim voltou ao trabalho, cinco semanas após a descoberta, muitas coisas tinham acontecido. O colega da esquerda foi promovido, e a esposa de outro faleceu, sendo que mal conseguiu dar os pêsames, e foi logo vendo sua mesa tão pequena que só cabia o computador. Em surto ameaçou quebrar tudo, registrar boletim de ocorrência, e até pedir demissão. Depois, acalmados os ânimos, sentou-se tentando se adequar ao novo espaço. Mas já praticamente não o cabia. A caneca agora, sem muito espaço, foi colocada em cima da pilha de papeis. 

E o que já estava ruim, conseguiu piorar. Agora a mesa diminuía de tamanho durante o expediente. Passou a não ir mais ao banheiro. Não bebia mais água, não saia nem para fumar. Ficava ali a vigiar. Enquanto isso, o trabalho ia acumulando, os colegas reclamando, e a mesa diminuindo ao menos duas vezes ao dia. 

Andava de um lado para outro com a trena em mão. Se percebia que a mesa diminuíra, sacava a trena e passava a medir todas as mesas. Não se importava se um estava atendendo ou no meio de um trabalho importante. Já chegava empurrando tudo e medindo milimetricamente para fazer suas anotações, no caderninho que já nem era mais suficiente. 

Na sétima semana, decidiu que não iria mais para casa, ficaria ali trabalhando e medindo as mesas a fim de descobrir quando exatamente ela encolhia. Disfarçava que ia embora, se despedia e aguardava todos saírem. Aí então voltava e ficava de vigia a noite inteira. Pela manhã fingia ter chegado cedo. E assim o tempo foi passando. 

Quando perceberam que ele não voltava para casa há mais de uma semana pela ausência de banho e barba por fazer, os colegas primeiro riram. Depois, ao perceberem que havia algo de sério no olhar dele, céticos, mediram todas as mesas, dizendo serem todas iguais. 

Porém a mesa foi ficando cada vez menor para o seu trabalho, até que na segunda-feira da décima semana os colegas chegaram e se assustaram ao perceber que não havia mais mesa. Havia apenas uma caneca com cara enfezada quebrada no chão.

Paula Carine

*Ilustração: Paula Carine 

** Tenho me aventurado por uma escrita um pouco diferente de tudo que eu já tinha escrito. E sabe que estou gostando? Espero que também estejam. E se você conhece alguém que gostaria de ler esse texto, me compartilha com ela! Até!

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paulacarinems@gmail.com

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