Lágrimas de leite

Lágrimas de leite

Ainda eram dez da manhã e já não aguentava de dor. Precisava ir ao banheiro. Nem precisou explicar à colega, a dor já tinha extravasado de seus seios. 

Era uma dor que começava lá dentro quando pensava que tinha deixado seu filho de cinco meses em casa para vir trabalhar. Dia após dia sentia essa dor. Dor-mãe, um sentimento de culpa que aumentava cada vez que imaginava seu filho chorando querendo acalento, querendo peito, querendo mãe. 

Fazia um mês que eu experimentava essa dor diária. Era uma dor real, podia garantir. E enquanto tentava limpar a blusa molhada e conter o vazamento, pensava se ia parar de produzir leite. Era um medo constante que secasse por completo a dádiva da vida que ainda havia nela.

Primeiro ainda tentou extrair seu leite em casa, mas era tão cansativo. Tinha lido em algum lugar sobre a energia gasta pelo corpo da mulher para produzir o leite materno. E era isso, parecia que tinha trabalhado o dia inteiro em apenas uma hora tentando retirar o leite. Ia coletando e colocando a data para guardar no freezer. Enquanto isso, no outro peito tinha seu filho mamando. Assim eram as suas noites até o dia que não aguentou mais, uma ou duas semanas depois de voltar ao trabalho. 

Depois, de vez em quando ia ao banheiro para estimular a produção de leite durante o trabalho. Entre uma subida e outra de escada, antes de começar a atender outra cliente, ia rapidinho a um canto e fazia a massagem que aprendera na internet. Mas agora, nem isso conseguia mais fazer, acabava esquecendo, vencida pelo cansaço.

Era difícil aguentar oito horas de trabalho diário, com uma hora de intervalo. Seis vezes por semana. Nas quatro semanas intermináveis de cada mês. Seu marido ainda dizia que seu trabalho nem era tão pesado assim. Pior era ele que pegava sacas e mais sacas todos os dias. Coitado, nem sabia onde doía mais. Ela ao menos sabia onde lhe doía. Doía o peito, mais o esquerdo. 

Voltou para frente das imensas prateleiras. Uma senhora muito bem arrumada lhe disse que queria experimentar alguns sapatos de salto e lhe apontou um preto muito bonito que tinha chegado essa semana. Elogiou o bom gosto e subiu para buscar a numeração dela, número 37. Um número comum, pé nem grande, nem pequeno, como o seu. Ela tinha mesmo achado o sapato muito bonito, não dissera aquilo para bajular a cliente. Se tivesse algum dinheiro sobrando, compraria aquele sapato, com certeza. Mas para usar onde? Seus pés mal tinham desinchado, e era sempre uma tortura ficar em pé o dia todo, subindo e descendo aqueles lances de escada, que seus pés queimavam no final do dia. Tinha horas que descia com quatro, cinco caixas de sapato. E quando parava para repor o fôlego, o gerente logo reclamava. 

Ele agora dera para falar, como quem resmunga, perto dela:

  • Volta da licença achando que pode fazer corpo mole. 

Corpo mole? Quem dera ele parisse um filho, amamentasse, acalentasse durante a madrugada e ainda subisse a escada tantas vezes quanto ela. Um dia desses contara, e se perdera na conta após mais de quarenta subidas e descidas em um único dia! Tinha clientes que a faziam subir mais de cinco vezes para sair sem comprar nada. 

Mas aquela dor não parava. Seu seio estava duro. E era todo dia a mesma coisa. Dor, vazamento, mais dor e metros e metros de papel higiênico enfiados no peito para tentar não sujar a roupa do trabalho. 

Agora tinha que trazer até o papel, pois o gerente reclamou que ela estava desperdiçando muito papel, que ali não era a casa dela. Ameaçou até descontar do seu salário e preferiu começar a trazer mesmo. Papel ainda era mais barato que aqueles protetores que vendiam nas farmácias, e dinheiro, ao contrário do seu leite,  estava raro. 

Mostrou o sapato para a cliente. Tinha certeza que ia ficar lindo, e ficou. Feliz a mulher disse que ficaria com os sapatos e ainda elogiou o seu atendimento. Mas não deixou de notar a mancha na sua blusa. Perguntou quantos meses tinha o seu bebê e ainda falou saudosa de quando amamentou os seus há mais de vinte anos, segundo ela. Disse que ainda conseguia sentir lá no fundo aquela sensação indescritível que toda mãe sabe qual é, mas não sabe descrever, de conexão profunda com o filho que a amamentação traz. Um sentimento que se confunde com um aperto no peito, mas um aperto bom.

Nessa hora o vazamento voltou. Parecia que estava adivinhando que falavam dele. Agora vazavam-lhe os seios e os olhos. Ela a abraçou e feliz foi pagar os sapatos. 

Precisava voltar ao banheiro, e discretamente foi saindo antes que algum cliente a abordasse pedindo para buscar mais sapatos. Quando voltava ouviu o gerente passar novamente do seu lado e dizer

  • Corpo mole, justa causa…

Não aguentava mais aqueles resmungos. Não aguentava mais a dor. Seus pés começavam a queimar de tanto ficar em pé. A fome também já estava reivindicando seu espaço na tortura em oito horas diárias. 

E, em meio a esse turbilhão de contratempos, lembrou de quando uma amiga dissera que chorou no banheiro na primeira vez que tivera que deixar a filha tomar uma vacina, sem ela poder colocá-la no peito para não se atrasar para o trabalho. Pensou que talvez não conseguisse levar o filho para tomar vacina na próxima semana. E nem chorar no banheiro poderia, com aquela marcação. 

Talvez fizessem aquilo para pressioná-las a pedir demissão. Por que incomodavam tanto? Eram vistas como estorvo, quando deviam ser vistas com admiração. 

Estava muito cansada. Seus seios tão pesados e duros como pedra pareciam colocar sobre ela todo o peso do mundo. E agora, não apenas seus pés queimavam, mas também seus seios e seus braços. Precisava sentar e tirar um pouco daquele leite. Até ali estava apenas remediando. Sua necessidade era urgente, porém a loja estava cheia. Em horário de pico estavam todos proibidos de se ausentarem. Seria preciso esperar um pouco. Mas a dor-mãe não espera, ela grita no corpo, aperta, lateja, e queima. 

E ela suportou, até que por fim esvaziou a loja e pode correr até o banheiro. Mas como estava sujo! Fedia a urina, a suor. E ela ali, tirando o leite e jogando fora. O leite que seu filho com certeza queria. Que pecado, que pecado! Remediou mais uma vez, pois já batiam a porta. Um banheiro para todos os funcionários, não havia paz. 

Quando o expediente acabou, carregou todo o peso até o ponto de ônibus. Busão lotado, e agora ela ia em pé, sem barrigão e bebê no colo, é cada um por si. Cansaço por cansaço, todos estavam exaustos no fim do dia de trabalho. 

Chegou em casa e ouviu logo um sorriso. Colocou a bolsa do lado e viu sua mãe vindo de lá com o filho seu nos braços. Abraçou-o e desesperadamente levantou a blusa e tirou o peito para fora dando-o em suplício. Um ansiava pelo outro. E enquanto ele sugava o leite seu, a dor-mãe diminuía e a felicidade aumentava. Estava cansada, sentia um aperto no peito, mas um aperto bom. 

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