Eu não sei qual foi a primeira vez que tive falta de ar. Mas essa condição já me acompanha há muito tempo. Primeiro é como se soprasse um ar frio nos meus pulmões. Sinto as costas formigando. A respiração pesa. Os intervalos entre puxar e soltar vão aumentando, a frequência diminuindo. Até que puxar o ar se torna difícil demais.
Acontece que a lembrança que tenho mais viva coincide com o dia que meu pai nos deixou. Eu tinha uns oito ou nove anos, não mais que isso. Meus pais sempre discutiam, mas esse dia foi diferente. Sempre que brigavam, meu pai dizia que minha mãe tinha que sair de casa, que nunca mais ela ia me ver. Mostrava a porta da rua, às vezes até a abria. Ela encolhia, chorava. No outro dia parecia tudo normal. Porém, nesse dia, ele disse que iria embora, que já não aguentava, que não nos veria nunca mais. E eu senti aquelas palavras entrando frias em mim e alojando nos meus pulmões. Foi se espalhando, e eu senti o ar rarear.
Lembro dele pegando as roupas no guarda-roupa e colocando de qualquer jeito em uma sacola. Pegou umas coisas no armário e saiu batendo a porta. Nunca voltou para pegar o restante das coisas. Acho que minha mãe acreditou que ele voltaria pois ela não foi atrás dele, ou então ficou muito preocupada com a minha falta de ar, e sabia que naquele momento eu precisava mais dela do que ela precisava dele.
Hoje quando tenho crises uso bombinha. É como se aquele conteúdo entrasse esquentando cada alvéolo. E pouco a pouco a respiração pesada vai voltando à sua costumeira frequência. O formigamento cede nas costas. E novamente sinto como se meus pulmões comportassem todo o ar do mundo.
Mas às vezes, em crises mais fortes, nem mesmo a bombinha resolve. Eu puxo aquele conteúdo em desespero, uma, duas vezes e não sinto o calor combater o frio. Os pensamentos começam a embaralhar. Eu me concentro na respiração, puxa, solta, puxa, solta e os pulmões parecem menores.
Nessas raras vezes que me vejo sozinha, eu e a falta de ar, volto lá nessa minha primeira lembrança e ouço minha mãe chorar e dizer puxa, solta. Lembro da xícara de água quente, Vick e um filtro de café. Aquele cheiro de eucalipto e cânfora entrando pelas minhas narinas. Sinto como se ela estivesse segurando minha mão. Vou e repito, e tudo se resolve.
Anos depois, o cheiro de eucalipto cedeu lugar ao de café coado e camisa passada. Mas o frio, esse eu reconheci na primeira vez.
Meu marido diz que não tenho asma nenhuma. Que faço isso para sensibilizar ele, chamar à atenção. Grita sua dissimulada, falsa do caralho. Enquanto eu puxo todo o ar que posso, ele diz que vai embora, e todo o ar parece insuficiente para desembaralhar as ideias.
Eu peço para ele pegar a bombinha e ele pergunta qual, a que comprou com o meu dinheiro. Quero é que morra, vale nem o ar que respira. E eu choro, o nariz entope, o ar fica mais raro ainda. Alcanço com dificuldade a bombinha, puxo e tento me acalmar. Mas ele me cospe de imprestável, lixo e tudo que é xingamento que consegue pensar. Nem encosta, não me dá um só tapa. Não precisa.
Nos dias que a bombinha é suficiente, no outro dia as coisas parecem melhores. Ele nem se lembra da discussão, eu lembro. Lembro que faltou ar, lembro das ofensas, lembro tudo. Mas ganho beijo na testa, conversas no café da manhã. Quando volta do trabalho um agrado para enterrar de vez o dia anterior ruim. E sobra oxigênio para respirar em todos os cômodos da casa.
Esses dias ele disse até que seria bom eu trabalhar, sair um pouco de casa, comprar roupas novas. Eu coloquei uma maquiagem, vesti uma roupa bacana, e fui a uma entrevista. O lugar tinha um cheiro de lavanda e álcool 70, móveis novos na recepção, uma luz bonita na janela, plantas. A recepcionista sorriu. Disseram que ligariam se fosse aprovada. Cheguei em casa feliz, ao menos não era um não.
Ele disse que eu estava animada demais, que não calava a boca, e que só falava desse tal lugar que tinha ido. Eu justifiquei que era tudo tão organizado, pessoas bonitas, só gente educada. E ele começou a dizer puta safada, já está de olho em macho né. Come da minha comida, dorme na minha cama e quer me cornear. E as palavras foram entrando frias, congelantes. E o corpo lembrou antes de mim, do mesmo frio, a mesma porta.
Nessas horas as costas pesam, vem o formigamento. E assim, de uma hora para outra, já não consigo respirar.
A bombinha na mesa de canto, puxei o remédio. Nada. Esperei enquanto escutava como não presto para nada. Não fazia efeito. Já nem ouvia direito mais o que ele dizia, mas conhecia todos os xingamentos. Ainda estava com muita raiva, mas se calou e caminhou pelo quarto. Abriu a porta do armário e começou. Rasgou minhas roupas, uma a uma, devagar, como quem confere o estrago. Jogou as blusas no chão, arrancou botões. Depois foi na maquiagem. Quebrou o batom, pisou no pó compacto. Por fim pegou o espelho, me mostrou o quanto sou feia, com esse cabelo horrível, baranga. Só eu te quero por pena, ele jogando na minha cara sua piedade. Puxei da bombinha de novo.
Ele quebrou o espelho no chão e disse que era para eu limpar, e que estava cansado do fingimento de falta de ar. Achei que ia desmaiar. Lembrei da minha mãe, puxa, solta, puxa, solta, e veio um quentinho no peito.
Corri para a cozinha para esquentar água, e no caminho pisei em um caco de vidro. Nem senti a dor. O pé seguiu sozinho, marcando o piso.
Onde está o Vick? Sempre a mesma coisa, nunca lembro onde está, talvez no banheiro. Mas sempre encontro e volto para a cozinha para pegar o filtro de café e a xícara. Puxa, solta, puxa, solta, e aos poucos vou melhorando.
Um pouco aliviada, me virei. O sangue no chão marcava o caminho do corredor até mim. Lembrei do pé. Um corte feio, fundo.
Ele também veio seguindo o rastro de sangue. Olhou meu pé, mas passou direto para o lado de fora. Voltou com uma vassoura e pá. Limpou os cacos do chão, limpou o sangue.
Vamos no hospital resolver isso, ele murmurou pegando no meu pé, e pressionando com panos limpos. A mesma mão que tinha arremessado o espelho. Segurei nos seus ombros até o carro. No caminho ele começou a falar do trabalho, do preço do arroz que subiu de novo. Nem pediu desculpas, mas eu não me importo. Entrei no saguão com a cara de quem chorou, mas um corte no pé dói muito, pode arrancar sangue e lágrimas.
Expliquei à enfermeira que tropecei e me bati no espelho, que caiu e quebrou, pisei no caco de vidro e na hora não percebi, só depois vendo o sangue. Três pontos e alguns dias sem pisar direito. Aí ele veio com uma história de que eu devia fazer algum curso, que preciso me reciclar. Pensei, claro, sou lixo reciclável.
Na volta para casa passamos na farmácia para comprar os remédios e gaze. Quer mais alguma coisa, meu marido perguntou. Traz uma bombinha e um Vick, nunca se sabe.