Autor: Paula Carine

Todos os textos, do mais recente ao mais antigo.

Lágrimas de leite

Ainda eram dez da manhã e já não aguentava de dor. Precisava ir ao banheiro. Nem precisou explicar à colega, a dor já tinha extravasado de seus seios. Era uma dor que começava lá dentro quando pensava que tinha deixado seu filho de cinco meses em casa para vir trabalhar. Dia após dia sentia essa dor. Dor-mãe, um…

Ler prosa →

Guarda Compartilhada

Sete e meia e ainda nenhuma mensagem. A cada quinze dias seus fins de semana eram de angústia. De não saber se ela teria tomado os remédios, se estava aquecida, se tinha se alimentado direito. Mas o que mais lhe doía era a cama vazia, a ausência de sua voz, sua gargalhada pela casa. Sem brinquedos espalhados, sem…

Ler prosa →

Se afogar

Ela me olhava com olhos de quem diz "leia-me como quem se afoga". Mas naquele tempo eu ainda não entendia. Porém a observava em todos os momentos, quando chegava, sentava e saía, sem dizer uma só palavra, ou sendo monossilábica. Apenas me olhava com aqueles olhos rios de águas escuras. E quando eu via aqueles olhos em…

Ler prosa →

Esse texto não é sobre medidas

Foi logo pela manhã que reparou que sua mesa de trabalho parecia menor que a mesa ao lado. Já estava aprisionado há alguns anos naquele mesmo lugar e nunca antes tinha percebido tal diferença. A mesa, cheia de protocolos e trabalhos inacabados, não tinha mais espaço para uma tarefa sequer. Não cabia nem a caneca de…

Ler prosa →

O barbeiro e o careca: a lembrança de um mullet perfeito

Aqui no salão eu vejo e escuto de um tudo. Coisas absurdas, que me fazem dar uma risadinha sem graça e dizer um "e não é?" só para não discordar do cliente. Há quem faça discursos filosóficos que eu não entendo nada, mas concordo. Se ele está dizendo, né? Mas também escuto desabafos sinceros, aquelas verdades que vêm…

Ler prosa →

Mente

Cuidadosamente fechou a porta e sorriu. Vagarosamente andou até a rua. Confusamente teve a sensação de estar esquecendo algo. Voltou. Apressadamente abriu a porta. Meticulosamente vasculhou, e nada achou. Resignadamente sorriu e fechou a porta. Seguiu. Curiosamente, ela ficou do lado de dentro.

Ler prosa →

Quando o Sol se põe

Uma, duas, três curtidas instantâneas. Era uma foto realmente bonita: a rua com pessoas e carros indo de um lado a outro. Mais curtidas. Havia fotografado aquele vai-e-vem que horas? Talvez perto de meio-dia, pela posição do sol. Porém, não conseguia lembrar. Voltou. E rolou o feed, devagar. Havia muitas lembranças…

Ler prosa →

Café dos atrasados

O café estava frio de tanta espera. Ele sempre se atrasava. Não era falta de relógio, não era falta de aviso, era apenas uma mania irritante de atrasar-se para pequenas coisas. Pensando bem, não devia ter esperado tanto para tomar o café. Quem gosta de café frio? Arriscava-se a dizer que quase ninguém. Isto porque, no…

Ler prosa →

João, sem Filho no nome

Aquele indo ali de bicicleta e saco de pão na mão é o João. João dos Santos Silva quase se chamou José da Silva Filho. Mas quando sua mãe o viu pela primeira vez disse que não tinha cara de José, e sim de João. E registrou-se então João, filho de José. Ficou prometido que o próximo filho teria o nome do pai, mas…

Ler prosa →

Bordado inacabado

A agulha entrava e saía com uma rapidez que parecia que ela estava a comandar uma orquestra. Era lindo de se ver. Ao fim, instintivamente ela cortava a linha com os dentes, e voltava-se para a máquina para concluir a costura. O dia passava rápido assim. Quando via, era hora de parar e voltar-se para o restante da sua…

Ler prosa →