Guarda Compartilhada

Guarda Compartilhada
Imagem rabiscada pela autora.

Sete e meia e ainda nenhuma mensagem. 

A cada quinze dias seus fins de semana eram de angústia. De não saber se ela teria tomado os remédios, se estava aquecida, se tinha se alimentado direito. Mas o que mais lhe doía era a cama vazia, a ausência de sua voz, sua gargalhada pela casa. Sem brinquedos espalhados, sem colinho. 

Ninguém entendia quando falava. Diziam que era boba, tinha que aproveitar a folga. Ou que era ausência de macho. Mas não, era a ausência da filha mesmo. Não dava para explicar, mas sentia-se nua. A cada quinze dias se sentia pela metade. 

Sete e cinquenta e nenhuma ligação. 

Incansavelmente olhava a tela do celular para ver se tinha sinal. Não era ausência de sinal, era apenas o silêncio. Sentia-se culpada de se sentir assim. Dependente de notícias. Podia ser um “boa noite, mamãe”, ou um “ela já tomou banho e vai dormir”. Qualquer coisa que demonstrasse que ela estava bem, que não precisava ficar preocupada, que não precisava sofrer por antecipação por um problema qualquer que provavelmente nem iria se materializar. Mas a mensagem não vinha. 

E qualquer um diria que era paranoia. Que ela precisava de terapia, de ajuda, ou de um novo relacionamento. Quem sabe fosse preciso tudo isso, ou se apesar de tudo isso continuaria assim. Era mãe, mães a entenderiam. Ou será que diriam que não? 

Oito em ponto. Ou se preferir, Vinte horas. 

Oi mamãe, vai para casa hoje não viu? Vai papai pizza comprar. Beijo. 

Agora podia dormir em paz.

***

Sete horas, momento de acordar.

O pior dia da semana. A hora que se arrependia das decisões tomadas. O dia que tinha vontade de fugir. A cada quinze dias repensava a vida toda enquanto sentia que era dividido pela metade.

Tentava aproveitar cada minuto. Mas era difícil. A todo tempo lembrava que segunda tinha que devolver ela na escola. O fim de semana que era de alegria também era de angústia, de sentir que a felicidade era passageira.

Sete e meia, cabelos penteados e a escova de dentes na mão.

Sim, uma meia de cada cor. Era sempre assim que ela queria. E não sabia por que, mas obedecia. Uma borrachinha de cada cor no cabelo, dentes escovados e um sorriso cúmplice no espelho. Era esse o ritual do fim da visita.

Costumava não contar para ninguém como era sofrido. Uma vez falara sobre e os amigos disseram que não se preocupasse, logo teria outros filhos. E filhos substituem filhos?

Oito em ponto. Oito horas mesmo.

Em frente à escola. Beijinho na testa, um “eu te amo”. E a dor de ser cortado ao meio. Ela nem percebia o seu sofrimento já que sorria. Virou-se em lágrimas, afinal seriam mais quinze dias sem aqueles olhos sobre si pedindo para assistir um pouco mais, para brincar um pouco mais, para correr um pouco mais.

A voz ainda viria pelo telefone ao longo dos dias, mas ligações não suprem abraços. O ser humano ainda precisa de toque, precisa estar no mesmo ambiente para sentir a respiração daquele que dorme em seus braços. E um pai precisa de filho tanto quanto filho precisa de pai.

***

Era difícil conciliar alegria e felicidade. Sentia-se uma criança dividida por mãe e pai. Mas será que entendia esse sentimento?

Sentava-se no chão do quarto, abrindo a mochila pequena para decidir quais brinquedos morariam na casa do pai e quais voltariam para a gaveta na casa da mãe. Um urso de pelúcia para lá, um carrinho para cá. A vida dividida em zíperes e caixas.

Era saudade e presença. Tudo ao mesmo tempo. Era culpa e amor. Enquanto tentava decidir a quem deveria amar e quem fingir não amar tanto assim.

Se amava um, o outro sofria. E se ia consertar, desconsertava mais. Não sabia o que fazer. E por não saber bagunçava os outros e a si. Mas a culpa era sua? Pensava que sim.

Era uma criança dividida. Partilhada, embora dissessem que a guardavam de forma compartilhada.

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